Gilberto Jasper: “Não aprendemos nada”
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Dois anos depois, bastou uma chuva mais forte para que o Rio Grande do Sul fosse tomado pelo medo. No Vale do Taquari, minha terra natal, as enchentes de setembro e novembro de 2023, e de maio de 2024, deixaram marcas que vão muito além das manchas escurecidas na parede dos prédios em quase todos os muni-cípios.
O pânico causado pela maior tragédia climática da história do RS traumatizou moradores de todas as idades. São incontáveis as histórias em que a solidariedade da população salvou vidas e o patrimônio de inúmeras famílias.
No balanço oficial de dois anos da enchente de 2024, lemos e ouvimos um festival de números, cifras, valores e pretensas obras que teriam sido efetivamente realizadas no Estado – projetadas, construídas e entregues para uso. Os governos estadual e federal se esmeraram na apresentação deste inventário, lançando mão de recursos tecnológicos de última geração.
Um candidato a senador – cargo que deveria representar to-dos os gaúchos em Brasília – chegou a afirmar que o governo fede-ral recuperou 800 pontes. O dado surpreendeu e gerou um misto de incredulidade e revolta. Usar tragédias, aliás, é típico do momento político que vivemos, de véspera de mais uma eleição. Conquistar votos a qualquer custo virou obsessão, mesmo que isso signifique ignorar limites éticos e de respeito humano.
Voltando às chuvas da semana passada, o episódio reiterou a falta de investimento em equipamentos modernos, capazes de an-tecipar fenômenos climáticos excepcionais. Apesar da garantia de que não haveria inundações, o que se viu foi o disparar de alarmes quando a situação já estava estabelecida.
Na busca de celebridade, algumas autoridades postaram vídeos assegurando que não havia riscos. Passado o pavor do avanço das águas, creditaram a culpa aos “modelos hidrológicos”, como se estas engenhocas tivessem vida própria. Comprovado o fiasco, os vídeos foram apagados.
Há previsão de mais precipitações, menos intensas, mas mais frequentas, mantendo o alerta. Teremos, ainda, agosto, cuja tradi-ção é de ser chuvoso. Além de setembro, mês marcado por cheias, como a chamada “enchente de São Miguel”, santo consagrado dia 29 e padroeiro do colégio onde estudei no antigo primário e segundo grau.
Resta rezar e torcer.