Neurologista Dr. Diego Dozza: Dor e espiritualidade: quando a fé encontra a ciência
A dor crônica é um problema complexo — e, cada vez mais, a ciência tem estudado um componente que antes ficava “do lado de fora” do consultório: a espiritualidade. Por muito tempo, existiu uma barreira entre espiritualidade e ciência. Hoje, essa separação vem diminuindo, porque pesquisas em neurociência, psicologia e cuidados em saúde têm mostrado que práticas espirituais (ou de busca de sentido) podem ajudar no enfrentamento do sofrimento, reduzir estresse e melhorar a qualidade de vida — o que, indiretamente, impacta a experiência da dor.
O neurocientista Andrew Newberg, conhecido por estudar a relação entre cérebro e experiências espirituais, descreve a espiritualidade como um campo com efeitos mensuráveis no cérebro. Em termos simples: aquilo em que focamos com constância muda a forma como o cérebro funciona. Quando uma pessoa contempla, reza ou medita de modo regular, ela pode fortalecer circuitos neurais ligados a atenção, regulação emocional e percepção de segurança. Isso importa porque a dor crônica não é apenas um sinal do corpo; ela também envolve memória, emoção, expectativa e significado.
Outro ponto relevante é que nosso cérebro tem uma tendência natural a dar mais peso ao negativo. Más experiências marcam mais, e o medo de “piorar” costuma ser maior do que a esperança de “melhorar”. Na dor crônica, isso pode virar um ciclo: pensamentos automáticos e crenças rígidas (“não vou melhorar”, “meu corpo falhou”, “não tenho saída”) aumentam ansiedade, tensão muscular, hipervigilância e, com isso, a dor se torna mais intensa e mais presente.
Nesse cenário, práticas como oração, meditação e outras rotinas espirituais podem funcionar como ferramentas de apoio, porque ajudam a reduzir estresse e ansiedade e favorecem emoções como calma, compaixão e esperança. Um detalhe importante: a forma como a pessoa se relaciona com sua fé também conta. Crenças que geram culpa, medo e punição constante tendem a piorar o sofrimento; já uma espiritualidade que promove acolhimento e sentido costuma ser mais protetora.
A literatura em cuidados paliativos e saúde também descreve algo que não aparece em exames: a chamada dor espiritual. A pioneira Cicely Saunders, referência mundial na área, propôs a ideia de “dor total” — um sofrimento que pode ter dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais. Em outras palavras: mesmo quando o tratamento físico está correto, pode existir uma dor ligada a perdas, rupturas de sentido, culpa, desesperança ou conflito interno.
Em crianças e adolescentes com câncer, por exemplo, revisões na literatura sugerem que abordar espiritualidade (respeitando a idade, a cultura e a família) pode contribuir para mais esperança e melhor enfrentamento do tratamento, o que se reflete também na forma como a dor é vivida.
Por fim, há um ponto prático: mudança exige treino. Ninguém acorda e simplesmente “decide” sentir paz, gratidão ou perdão de forma automática. Mas é possível treinar novos hábitos mentais e emocionais — e isso se relaciona com a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se reorganizar ao longo do tempo. Dentro dessa lógica, virtudes como gratidão, perdão, autoperdão, resiliência e amor podem ser vistas não como “frases bonitas”, mas como práticas que, repetidas com consistência, ajudam a reescrever a forma como a pessoa interpreta sua história — inclusive sua dor.
Mas não esqueça: nada disso substitui avaliação médica, fisioterapia, psicoterapia ou medicação quando indicada. A ideia é que espiritualidade, quando vivida de forma saudável, pode ser um apoio real dentro de um cuidado integral. Forte abraço.
Neurologista Dr. Diego Dozza
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