Neurologista Dr. Diego Dozza – ‘Como a Creatina Atua no Corpo e no Cérebro Segundo a Ciência’
Você já ouviu falar da creatina como aquele pó branco que frequentadores de academia consomem para ganhar massa muscular. Mas a verdade é bem mais interessante.
A creatina é um composto natural produzido pelo próprio organismo — especialmente nos rins e no fígado, a partir dos aminoácidos arginina, glicina e metionina. Também obtemos creatina pela alimentação, principalmente carnes vermelhas e peixes. Do total armazenado no corpo, cerca de 95% fica nos músculos esqueléticos. Os 5% restantes, porém, habitam órgãos com enorme demanda energética: coração, testículos e, sim, o cérebro.
Não se trata de um mero suplemento para levantadores de peso. Ela é um componente fundamental do maquinário energético que mantém nossas células vivas e funcionando.
Para entender a creatina, é preciso falar sobre a verdadeira moeda de energia do corpo: o ATP (trifosfato de adenosina). Durante uma contração muscular intensa — um sprint de 100 metros ou um agachamento pesado — o ATP se esgota em segundos. Se não houver uma forma rápida de repor essa energia, o músculo simplesmente para.
É aí que entra a fosfocreatina (PCr). Pense nela como uma bateria de recarga ultra-rápida, que regenera ATP em milissegundos. Esse ciclo permite que você mantenha a potência por mais tempo.
Mas o sistema vai além. A creatina também atua como um transportador de ATP da mitocôndria (a usina da célula) para os locais de maior consumo. Sem esse vaivém molecular, o músculo sofre um apagão energético em segundos.
Revisões científicas robustas (como a de Kreider & Stout, 2021) apontam que a suplementação de creatina melhora o desempenho em atividades de alta intensidade e curta duração em 10% a 20% — saltos, sprints repetidos, séries de musculação. O ganho de força e massa magra (hipertrofia) em jovens saudáveis que treinam resistido é um dos efeitos mais bem estabelecidos da nutrição esportiva, com dezenas de ensaios clínicos randomizados confirmando o benefício.
Um scoping review de 2022 (Wu et al.) analisou os estudos entre 2012 e 2021 e concluiu que a creatina apresentou efeitos consistentes em força, potência e massa muscular nessa população. A ressalva importante: em idosos, os efeitos são mais tímidos e dependem de um treino resistido de alta qualidade para se manifestarem de forma evidente.
O cérebro consome cerca de 20% de toda a energia do corpo e possui sua própria isoforma de creatina quinase (BB-CK). Por isso, faz sentido pensar que aumentar a disponibilidade de creatina no sistema nervoso pode ter efeitos.
Em pacientes com fibromialgia, um ensaio clínico duplo-cego (Alves et al., 2013) demonstrou que a suplementação (20 g/dia por 5 dias, seguida de 5 g/dia por 16 semanas) elevou significativamente a fosfocreatina medida por espectroscopia de ressonância magnética (³¹P-MRS) e melhorou a força em membros inferiores e superiores. Os sintomas subjetivos de dor, porém, não apresentaram melhora significativa — o benefício foi mais claro na função física.
No campo das demências, um estudo piloto em pacientes com Doença de Alzheimer (Smith et al., 2025) testou 20 g/dia de creatina monohidratada por 8 semanas. O resultado foi promissor: os níveis de creatina total cerebral (tCr) aumentaram cerca de 11% (medidos por ¹H‑MRS) e alguns testes de memória de trabalho e cognição melhoraram. Esses achados são entusiasmantes, mas rigorosamente preliminares — o estudo não incluiu grupo placebo, portanto não podemos atribuir todas as melhoras à creatina.
A creatina também parece proteger o cérebro em situações de “estresse bioenergético”, como privação de sono ou hipóxia. O mecanismo proposto é o mesmo do músculo: fornecer uma reserva rápida de ATP quando o metabolismo oxidativo está comprometido.
Muito mais que um suplemento para atletas, a creatina mostra papel essencial na bioenergética celular e surge como aliado na saúde clínica e cognitiva. Seja prudente e utilize os suplementos alimentares sempre orientado por um profissional. Forte abraço.
Neurologista Dr. Diego Dozza
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