Violência contra a mulher: um problema de saúde pública que precisa ser enfrentado por todos
– Dra. Emanuela Meneghini
Como médica da atenção primária, vejo diariamente que a violência contra a mulher não é apenas uma questão social ou de segurança pública — é também um grave problema de saúde.
Ela se manifesta de várias formas: violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial. Muitas vezes, não deixa marcas visíveis, mas causa sofrimento profundo, adoecimento mental, ansiedade, depressão, dores crônicas e até doenças físicas relacionadas ao estresse contínuo.
No Rio Grande do Sul, os números são alarmantes. Em 2025, o estado registrou cerca de 80 feminicídios consumados, além de mais de 250 tentativas de feminicídio. No mesmo período, foram mais de 52 mil ocorrências relacionadas à violência contra a mulher enquadradas na Lei Maria da Penha.
Quando olhamos uma série histórica mais longa, o cenário é ainda mais preocupante: entre 2012 e 2025, mais de 1.200 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado — o que representa, em média, uma mulher assassinada a cada quatro dias.
E os números seguem preocupantes em 2026. Nos primeiros meses do ano, já há registros de novos casos, com uma média aproximada de um feminicídio a cada poucos dias, reforçando que essa é uma realidade persistente e urgente.
Mas sabemos que esses dados representam apenas parte da realidade. Muitas mulheres não denunciam, seja por medo, dependência emocional ou financeira, vergonha ou falta de apoio.
Na unidade de saúde, é comum que a violência apareça de forma silenciosa: uma dor crônica sem causa aparente, crises de ansiedade, insônia ou múltiplas consultas sem melhora. Por trás desses sintomas, pode existir uma história de violência que precisa ser acolhida com escuta qualificada.
Por isso, é fundamental que os profissionais de saúde estejam atentos aos sinais e preparados para acolher sem julgamento. O Ministério da Saúde orienta que toda suspeita ou confirmação de violência seja notificada, garantindo cuidado integral e proteção à vítima.
Mas o enfrentamento não é apenas dos serviços de saúde. É de toda a sociedade.
Precisamos falar sobre o tema, orientar nossas pacientes, apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade e, principalmente, não nos calarmos diante de sinais de violência.
Se você é mulher e está vivendo uma situação de violência, saiba que você não está sozinha. Procure ajuda. Os serviços de saúde, a rede de proteção e o Disque 180 estão disponíveis para acolher e orientar.
Combater a violência contra a mulher é promover saúde, dignidade e vida.
– Dra. Emanuela Meneghini – Médica generalista, Pós graduanda em medicina da família e comunidade e medicina do trabalho.