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Neurologista Dr. Diego Dozza : Quando a dor abdominal não vem “de dentro”: o que é a ACNES

Há pacientes que passam meses — às vezes anos — ouvindo que seus exames estão normais, apesar de uma dor abdominal real, localizada e incapacitante. Em parte desses casos, o problema não está no estômago, no intestino, no fígado ou na vesícula. Está na própria parede do abdome. É aí que entra a ACNES, sigla em inglês para síndrome de aprisionamento do nervo cutâneo anterior.

Em termos simples, trata-se do aprisionamento de pequenos nervos que atravessam a musculatura abdominal para chegar à pele. Quando esse nervo fica comprimido, ele passa a gerar uma dor bastante característica: pontual, intensa, bem localizada e geralmente unilateral. O paciente costuma conseguir mostrar com um dedo exatamente onde dói. Isso, por si só, já deveria acender um alerta clínico.

O problema é que a ACNES ainda é pouco lembrada. Como “dor abdominal” costuma ser automaticamente associada a órgãos internos, muitos pacientes entram em uma via-sacra de consultas, ultrassons, tomografias, endoscopias e exames laboratoriais sem resposta objetiva. Não raramente, o resultado vem com a frase frustrante: “não há nada de importante”. Há, sim. Só que, nesses casos, a origem pode estar fora das vísceras.

A pista mais valiosa está no exame físico. Uma manobra clássica é o sinal de Carnett: o médico pressiona o ponto doloroso enquanto o paciente contrai a barriga. Se a dor piora ou se mantém, isso sugere que a origem está na parede abdominal, e não dentro da cavidade. Outro achado comum é alteração de sensibilidade na área dolorosa: mais dor ao toque, dormência, sensação estranha na pele ou desconforto ao pinçar a região. Em muitos casos, o diagnóstico é reforçado quando uma infiltração com anestésico local reduz claramente a dor.

Esse ponto merece destaque: ACNES é, acima de tudo, um diagnóstico clínico. Exame de imagem pode ajudar a excluir outras causas, mas não costuma “mostrar” a síndrome. Quem espera que o diagnóstico venha de uma ressonância, em geral, vai se decepcionar. O reconhecimento depende mais de escuta clínica e exame bem feito do que de tecnologia.

O tratamento costuma seguir uma lógica escalonada. A primeira etapa geralmente é a infiltração no ponto doloroso, com anestésico local, às vezes associada a corticosteroide. Isso pode funcionar de duas maneiras ao mesmo tempo: ajuda a confirmar o diagnóstico e pode aliviar a dor. Parte dos pacientes melhora de forma duradoura apenas com essa medida. Quando isso não resolve, entram opções intermediárias, como técnicas intervencionistas para modular o nervo doloroso. Nos casos persistentes e bem selecionados, a neurectomia cirúrgica, retirada do segmento nervoso responsável, pode trazer benefício relevante.

E como sempre falo sobre as dores crônicas: há tratamento. E mais do que isso: há tratamento racional, baseado em etapas, sem precisar transformar toda dor abdominal crônica em “problema emocional”, “síndrome inespecífica” ou “coisa da cabeça”. A literatura mostra que, quando a ACNES é reconhecida e tratada de forma adequada, uma parcela importante dos pacientes tem alívio substancial.

A principal falha, portanto, não é a falta de tratamento. É a falta de suspeição diagnóstica. Em medicina, o que não se pensa, não se diagnostica. E o que não se diagnostica vira peregrinação, gasto, ansiedade e cronificação da dor.

Portanto se você tiver uma dor abdominal crônica que não melhora e já realizou diversas investigações, ACNES é um diagnóstico possível. Procure um especialista em dor para poder te auxiliar a melhorar sua qualidade de vida!

Neurologista Dr. Diego Dozza

Local de atendimento:

Passo Fundo – Rua Teixeira Soares 1117, sala 501, tel (54) 3622-2989/3622-2990

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