Neurologista Dr. Diego Dozza: Síndrome do Pescoço Tecnológico: um problema cada vez mais presente
A tecnologia chegou para facilitar nossas atividades diárias, o trabalho, os estudos e também os momentos de lazer. Entretanto, juntamente com todos esses benefícios, surgiram alguns problemas relacionados ao uso excessivo e, principalmente, à postura inadequada durante a utilização de celulares, tablets e computadores. Entre eles está a chamada síndrome do pescoço tecnológico, ou tech neck, condição cada vez mais frequente e que merece atenção especial, principalmente entre crianças e adolescentes.
A cervicalgia, nome dado à dor na região do pescoço, é um importante problema de saúde e vem se tornando cada vez mais frequente entre pessoas jovens, que permanecem muitas horas do dia olhando para baixo em direção às telas. Quando utilizamos o celular com a cabeça inclinada para frente, aumentamos significativamente a sobrecarga sobre a coluna cervical. Em posição neutra, olhando para frente, a cabeça exerce sobre a coluna uma força equivalente a aproximadamente 5 kg. Com uma inclinação de 30 graus, essa carga pode chegar a cerca de 18 kg e, quando a cabeça permanece inclinada em torno de 60 graus, pode atingir aproximadamente 27 kg. Imagine manter essa sobrecarga durante várias horas, todos os dias, ao longo de meses e anos.
Essa postura mantida por períodos prolongados exige muito mais dos músculos, ligamentos e articulações da região cervical. Com o tempo, podem surgir dor e rigidez no pescoço, dor nos ombros e na parte superior das costas, dores de cabeça frequentes e, em alguns casos, formigamento ou dormência nos braços e nas mãos. A dor também pode irradiar para a cabeça, ombros e região dorsal. Na maior parte das vezes não existe uma lesão grave ou uma doença específica da coluna, mas sim uma sobrecarga repetitiva relacionada aos hábitos posturais.
O problema é ainda mais preocupante durante a infância e a adolescência. Nessa fase, muitas vezes não existe dor importante no início e, por isso, a criança ou o adolescente não percebe as consequências daquela postura. Entretanto, hábitos inadequados mantidos durante anos podem contribuir para o aparecimento de dor crônica posteriormente. Além disso, o uso prolongado de equipamentos eletrônicos pode estar associado a outras queixas, como cansaço visual, olhos secos, redução da atividade física, irritabilidade, isolamento e piora do rendimento escolar.
Não precisamos, e nem conseguiríamos, retirar a tecnologia da vida das crianças e dos adultos. O importante é aprender a utilizá-la de maneira adequada. Uma das principais medidas é evitar permanecer com a cabeça inclinada para baixo por longos períodos. O celular deve, sempre que possível, ser elevado até uma altura próxima à dos olhos. Computadores também devem ser posicionados de modo que a tela fique adequada à altura do usuário, evitando que a pessoa permaneça curvada. É igualmente importante realizar pausas frequentes, levantar, movimentar o corpo e evitar ficar durante horas na mesma posição.
A prática regular de atividade física também tem papel fundamental. Uma musculatura fortalecida ajuda a proteger a coluna das sobrecargas do cotidiano. Crianças e adolescentes precisam correr, brincar, praticar esportes e movimentar o corpo, e não substituir progressivamente essas atividades por horas sentados diante de uma tela.
Quando a dor cervical é persistente, intensa, apresenta irradiação para os braços ou vem acompanhada de formigamento, perda de força ou outros sintomas neurológicos, é importante procurar avaliação médica. Entretanto, na síndrome do pescoço tecnológico, a melhor estratégia continua sendo a prevenção.
Talvez o maior desafio esteja dentro de casa. Não adianta orientarmos uma criança a deixar o celular enquanto nós mesmos permanecemos durante horas olhando para uma tela. Ensinar uma postura adequada, estabelecer limites para o tempo de uso, estimular atividades físicas e fazer pausas devem fazer parte da rotina de toda a família. Quando falamos de tecnologia e saúde, orientar é importante, mas dar o exemplo continua sendo fundamental. Forte abraço!
Neurologista Dr. Diego Dozza
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