Antes mesmo do colo, prematuros do HSVP recebem um cuidado que chega em gotas
Para bebês que chegam ao mundo antes do tempo, pequenas gotas de colostro representam mais do que alimento: levam proteção, nutrientes e fortalecem o vínculo entre mãe e filho. No Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), de Passo Fundo, a colostroterapia integra a assistência materno-infantil e ganha destaque durante o Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre a importância da amamentação.
O processo envolve as equipes da Maternidade, UTI Neonatal e Sala de Coleta, que atuam diariamente na orientação e no auxílio às mães para a extração do colostro, que é o primeiro leite produzido após o nascimento. Mesmo em pequenas quantidades, ele é rico em nutrientes e componentes de defesa, fundamentais especialmente para os recém-nascidos prematuros extremos, que apresentam maior vulnerabilidade e imaturidade do sistema imunológico.
Para mães que vivem a experiência da prematuridade, a extração do colostro tem um significado bastante especial. Essa é a realidade de Paloma e Higor, pais de primeira viagem de Heloísa, que nasceu com apenas 29 semanas de gestação e está internada na UTI Neonatal. Enquanto ainda não pode ser amamentada diretamente no seio, a bebê já recebe o colostro extraído pela mãe. “Eu não esperava que minha filha nascesse tão prematura e estava ansiosa para amamentar. Então, enquanto ainda não posso, sei que essas gotinhas estão cheias de nutrientes para ajudá-la a ganhar peso e saúde. Também é uma forma de estarmos ligadas”, conta Paloma.
A pediatra neonatologista Dra. Cristiane Agostini Cassanelo explica que a colostroterapia é indicada principalmente para bebês nascidos com menos de 28 semanas de gestação ou com peso inferior a um quilo, além daqueles que, devido à imaturidade ou a condições clínicas, ainda não podem receber o leite materno diretamente pelo seio ou por sonda. “O colostro é esse leite inicial, extremamente rico em células de defesa, nutrientes e imunoglobulinas. Ele funciona quase como uma primeira vacina de proteção para os prematuros”, explica.
Entre os benefícios associados ao uso do leite materno nos bebês estão a redução do risco de infecções, a melhora da aceitação alimentar e do estado nutricional. Estudos também apontam possíveis melhorias no desenvolvimento cerebral e cognitivo, oferecendo componentes importantes para a proteção e o desenvolvimento da criança. “Não é apenas uma questão de nutrir. O leite materno oferece diversos componentes que podem fazer diferença justamente para essa população de recém-nascidos mais vulneráveis”, destaca a Dra. Cristiane.
Como funciona o protocolo de extração do colostro?
A colostroterapia começa com a extração do colostro pela mãe, na Sala de Coleta. O material é identificado, armazenado e encaminhado com segurança à UTI Neonatal, onde é cuidadosamente administrado na mucosa oral do bebê. A prática não substitui a alimentação, mas permite que o recém-nascido tenha contato precoce com os componentes protetores presentes no leite materno.
A colostroterapia é aplicada a bebês nascidos com menos de 28 semanas de gestação ou com peso inferior a 1.000 gramas, até os sete dias de vida. Conforme a nutricionista da área materno-infantil, Thaís Serra, por serem mais frágeis e, muitas vezes, ainda apresentarem imaturidade do trato gastrointestinal, esses recém-nascidos precisam de cuidados específicos. “Aplicamos 0,1 ml de colostro, imediatamente após a coleta, na face interna de cada bochecha do bebê. A oferta precoce permite que, mesmo diante das limitações da prematuridade, ele tenha contato desde os primeiros dias com importantes componentes do leite materno”, explica.
A enfermeira Alessandra Costa da Silva destaca que o trabalho integrado da equipe multiprofissional é essencial para garantir a segurança do processo e acolher as famílias. Para as mães, a coleta do colostro também representa uma forma de participar ativamente do cuidado, mantendo-se próximas dos filhos mesmo diante da rotina da UTI. “Cada gota produzida pela mãe é uma maneira de estar presente, cuidar e fortalecer o vínculo com o bebê. São pequenas gotas, grandes doses de amor e proteção”, resume a gestora da UTI Neonatal. Nesse momento de tanta fragilidade e incerteza, esse gesto simples ajuda a mãe a se sentir parte do cuidado e da recuperação do filho.
Manter um protocolo estruturado de colostroterapia reforça o compromisso do HSVP com uma assistência individualizada, segura e baseada em boas práticas. É um cuidado que une conhecimento, tecnologia e o envolvimento da família. Para Paloma, enquanto aguarda o dia em que poderá, finalmente, colocar Heloísa no colo e amamentá-la, cada gota de colostro carrega um significado especial: é alimento, proteção e cuidado, mas também uma forma de dizer, todos os dias, mesmo por meio de um gesto tão pequeno: “Eu te amo e estou aqui com você.”
Legenda 1 – A colostroterapia começa com a extração do colostro pela mãe, na Sala de Coleta, que é identificado e encaminhado com segurança à UTI Neonatal
Legenda 2 e 3 – Paloma e Higor acompanham a administração do colostro à filha, Heloísa, que nasceu com 29 semanas de gestação
Foto – Ana Paula Koenemann – Comunicação HSVP