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Ronaldinho Gaúcho: O gênio indomável e o mestre disciplinado do futebol às telas

No calendário do futebol brasileiro, há estreias que não cabem apenas na lógica do entretenimento. Por isso ganham também arquibancada, memória e debate. A nova leva de documentários da Netflix Brasil chega como um verdadeiro campeonato narrativo. São produções que atravessam o glamour dos estádios europeus, a pressão de Copas do Mundo e o barro dos campos de várzea. Mas é no duelo simbólico entre duas figuras gigantes, Ronaldinho Gaúcho e Zico, que o lançamento encontra sua alma mais provocadora.

A minissérie sobre Ronaldinho, que estreia no próximo dia 16, não é apenas uma biografia. Trata-se de uma investigação sobre o que o Brasil fez com o talento e o que o talento fez com o Brasil. Nascido em Porto Alegre, Ronaldinho carrega o selo gaúcho não apenas no nome, mas na atitude. Há algo de fronteira em seu futebol. Ele foi se mostrando imprevisível, irreverente, quase indomável. O documentário que traz a figura do atleta resgata esse menino do sul que transformou improviso em linguagem universal. Em um país em que o futebol muitas vezes é disciplinado à força, Ronaldinho foi a exceção celebrada. Ficou conhecido como o craque que jogava como se ainda estivesse na rua, mesmo sob os holofotes de Barcelona e da seleção. A série traz depoimentos de figuras icônicas do esporte, como Lionel Messi, Neymar Jr., Roberto Carlos, Gilberto Silva, Felipão, Carles Puyol e Galvão Bueno.

Mas o lançamento também tensiona essa narrativa com outra figura essencial, a de Zico. Se Ronaldinho representa o improviso que desafia o sistema, Zico encarna a excelência que o organiza. “Zico: O Samurai de Quintino”, que estreia no próximo dia 30 de abril nos cinemas, surge como um contraponto necessário. Não se configura apenas um resgate histórico, mas como reafirmação de um Brasil que ensinou o mundo a jogar futebol com inteligência, técnica e ética. Zico não foi apenas ídolo. Foi também uma espécie de “embaixador”. No Japão, ajudou a semear uma cultura futebolística. Na Europa, foi reverenciado. No Brasil, tornou-se parâmetro. Sua trajetória levanta, na produção, uma pergunta que segue incômoda. Por que o país que formou Zico tantas vezes negligencia seus próprios mestres?

O filme sobre Zico aposta em uma abordagem sensível e inédita. Combina depoimentos exclusivos e conversas com personagens-chave, ex-parceiros e fãs que se tornaram ídolos. O espectador pode encontrar depoimentos de Júnior Maestro, Carpegiani, Carlos Alberto Parreira, Ronaldo Fenômeno, o radialista José Carlos Araújo, entre outros. Não poderia faltar também o olhar familiar. É quando surgem os três filhos de Zico e sua esposa, Sandra, que visitam o vasto acervo pessoal do Galinho de Quintino. Ao equilibrar emoção, contexto histórico e análise esportiva, o filme dialoga tanto com quem acompanhou de perto a trajetória do reconhecido camisa 10 quanto com novas gerações. Estes últimos podem descobrir a dimensão de sua influência dentro e fora dos gramados.

Entre esses dois polos, o gênio indomável e o mestre disciplinado, os documentários constroem uma narrativa maior sobre identidade. O futebol brasileiro, ao contrário do que se costuma repetir, não é uma coisa só. Ele é conflito. É tensão entre arte e resultado, entre rua e tática, entre talento bruto e lapidação.

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O que a Netflix propõe, portanto, não é apenas nostalgia. É quase um diagnóstico. Ao colocar Ronaldinho e Zico no centro desse ecossistema, a plataforma convida o público a questionar-se sobre o que define o futebol brasileiro hoje. Na sequência, “Tetra: Acreditar de Novo” chega em 7 de maio e revisita, com material inédito, a conquista da Copa do Mundo de 1994. Fechando o jogo, “Várzea: Onde Nasce o Futebol” estreia em 8 de junho e revela o universo da várzea em São Paulo, berço de talentos como Cafu e Raphinha.

Netflix / Divulgação

CP

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